sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Culinária Mágica no Catolicismos Português


A receita que se segue é confeccionada todos os anos pela minha mãe para o dia de todos os santos. Apresento-vos aqui os ingredientes, gestos e palavras que a observei repetidamente fazer e que como vão constatar tem um lado supersticiosos bem vincado.


Bolinhos dos Santos
(bolinhos de farinha de trigo)

Ingredientes

3kg de farinha (com adição de fermento)

1,2kg de açúcar

Raspa de 4 a 5 limões

7 ovos

1 noz de fermento de padeiro dissolvida em água morna

2 colheres (sopa) cheias de margarina

Água com sal, mel, canela e erva doce, passas e nozes a gosto

Uma chávena (café) de azeite quente



Modo de confecção

Mistura-se numa tigela a farinha, o açúcar e a raspa dos limões, canela e erva doce.

Abrem-se 4 buraquinhos e despejam-se os ovos batidos no 1º, a água com sal no 2º, no 3º as 2 colheres de margarina derretidas, e no 4º o fermento dissolvido. Começa-se a amassar, junta-se o mel e retempera-se de especiarias, sempre com uma tigela de água por perto que se deve adicionar se a massa apresentar grumos.

Quando estiver tudo bem envolvido e temperado rega-se a massa com o azeite quente. Neste momento a massa deve começar a desprender-se das bordas da tigela. Juntam-se então as passas e as nozes.

Traça se uma cruz na massa e reza-se a seguinte oração “Em louvor de São Miguel e S.Simão acrescente em massa o que acrescentou em grão” e em seguida cobre-se então com calças de homem “barrasco”.

Deixa-se levedar 90 minutos resguardado do frio e vai a cozer em forno bem aquecido.

PS: Quem sabe uma fonte de inspiração para confecções no próximo sabbat.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A vida e a morte e toda a lógica da cadeia alimentar



Há quase dois meses que sinto vontade de escrever isto e apesar de achar que a maioria das pessoas já ouviu falar desta prática continuei a sentir o impulso. Então cá vai...

O chamado "enterro celeste" é um rito funebre tradicional no budismo tibetano, em que o cadáveres são expostos ao ar livre desmembrados.

Do ponto de vista funcionalista a prática terá surgido devido à escasses de madeira na região para proceder à cremação que fica assim reservada aos guias espirituais. O enterramento por seu lado seria reservado a criminosos e vitimas de doenças.

Já do ponto de vista cosmológico a prática faria sentido na medida em que após a realização de um ritual que auxilia a libertação de toda a consciência do individuo do seu corpo e a sua "transferência" para outro plano, podendo reencarnar em seguida, o corpo que perde qualquer utilidade. E é num acto de generosidade, deixado à disposição de outros seres vivos para que dele se possam alimentar.

É esta ultima ideia que faz todo o sentido para mim. Desde pequena que me faz uma certa confusão a obecessão com que se arranca toda a santa ervinha que nasça em torno das campas nos cemitéios portugueses. Não sei e não tenho pressa em tomar posição na eterna discussão em torno do que acontece ao espirito/consciência ou lá o que seja, depois da morte do corpo. Só sei que vou sempre sentir saudades dos amigos que morreram e que me anima saber que no universo "nada se perde, tudo se transforma".

Apazigua-me muito mais pensar que aquelas ervinhas em torno da campa de um ente querido têm parte de si e que florescem graças a si, do que qualquer outra ideia sobre eterno descanso ou reencarnação. Sem duvida que prefiro pensar que ele agora se dividiu e faz parte de um todo maravilhoso que e o universo e a vida, e só gostava de ter conseguido explicá-lo aos corações destroçados com os quais me cruzei.

Além disso há aqui uma questão de justiça, se ao longo da nossa vida nos alimentamos de outros seres vivos parece-me muito bem que outros seres vivos se possam alimetar de nós também. Por questões sanitárias o "enterramento celeste" é posto de parte, mas porquê o horror às ervinhas? Porque não semear aí mesmo as flores que tanto gostamos de aí depositar? 

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Males de Inveja - SOS para invejosos e invejados



   É um simples facto, boa parte da população do planeta está neste momento a pensar neste assunto. - Fulano parece ter inveja de mim, mas porquê? - Será que aquele invejoso me vai prejudicar? - É bom saber que sicrano se está a roer de inveja! - Como é que eu me livro deste sentimento horrível, não consigo parar de sentir inveja? - Isto só pode ser mal de inveja! - Aquele(a) invejoso(a) lançou-me um feitiço.

   Inveja... há todo o tipo de histórias que alertam para o seu perigo e todo o tipo de amuletos, rezas, técnicas e especialistas que nos prometem livar-nos dela. Desde as mais pragmáticas às mais esotéricas, há de tudo um pouco e todos nós, quer como invejoso quer como invejado, já recorremos a alguma.

   Recentemente surgiram uns comentários anónimos aqui no blog a propósito deste assunto um deles até parecia um pedido de ajuda. Foi coisa que me intrigou, como poderia eu ajudar?

   Bem vou ser sincera convosco, sou uma pessoa que se esforça por ser racional e prática e acho que o caminho do mágico religioso serve muito pouco para este problema e inclusive potencia uma certa hipocondria. O que não falta por aí é pessoas a beber água benta antes de sair de casa e marginalizados por alegadamente possuirem algum tipo de mau olhado congénito.

   Se nos apercebemos que alguém tem inveja de nós deviamos compadecer-nos dessa pessoa e não retribuir-lhe pragas e ódio. É que ser ou estar invejoso torna quem quer que seja miserável. O invejoso no estado mais avançado da patologia não consegue estar satisfeito com nada benéfico para si próprio, apenas com algo que reduza aquele que inveja. E assim deixa de viver a sua própria vida e passa a viver a de outrém.

   A primeira coisa que devemos pensar quando nos apercebemos que alguém nos inveja é se essa pessoa está a ser de algum modo menosprezada injustamente por aqueles que nos valorizam. Se isso se verifica e nós quizermos ser justos devemos restituir a justiça. Porém muitas vezes aquilo que os outros invejam em nós são coisas que não podemos mudar ou que nos pertencem com toda a legitimidade. Nesse caso aconselho simplesmente que ignoremos esse pobre diabo e que só o castiguemos se ele cometer realmente algum crime. Passar menos tempo a topar o que os outros pensam de nós também pode ser uma boa maneira de fazer desaparecer o problema e não nos tornarmos hipocondriacos, rodeados de amuletos de protecção, orações e a gastar largas somas em especialistas.

   Mais grave é o caso quando somos nós próprios os invejosos. Primeiro passo, porque sinto isto? Estou a ser injustiçado ou isto é disparatado? O mais provável até é não gostar-mos de algum aspecto em nós próprios, algum aspecto que o outro tem e que lhe facilita a vida. Por exemplo: facilidade de aprendizagem, à vontade ou um mero palmo de cara. Temos que aprender a gostar de nós, temos defeitos mas também temos coisas boas, se calhar não podemos mudar esse bem dito aspecto mas podemos melhorar outros. E acima de tudo temos que viver a nossa vida. Às vezes isso pode implicar mudar de ambiente deixar de estar com a pessoa que invejamos para quebrar o sentimento de concorrência e ir em busca dos nossos próprios sonhos. Atenção os nossos sonhos quase nunca são aqueles que aquela pessoa que invejamos realizou atingindo assim o sucesso.
      
   Claro que há aqui uma questão cultural que não pode ser negada, há culturas que assumem a inveja como mais perigosa e outras como menos. E o que não faltam são evidencias de ambas as opiniões. Mas mesmo que o leitor tenha nascido num meio em que a inveja gere grande temor isso não o livra de ser critico em relação ao que lhe ensinaram e quem sabe até concordar comigo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Conspiração Contra os Signos do Zodíaco

  

   Depois de uma noite sem dormir, das duas uma: ou estou completamente zombie ou calma, bem humurada e criativa. Vai daí, hoje lá para as oito da manhã, dei por mim a pensar que um puto que nasça perto do solsticio de verão pode ser na verdade considerado um filho do outono. É tudo uma questão de ponto de vista.
   Facto é que normalmente ninguém é concebido na estação em que nasce e parece-me que para quem apreciar os determinismos dos signos do zodíaco isto devia ser um problema. Então se os ingredientes são de outras estações, se a sua junção se dá  noutros ambientes (com outras energias se preferirem), não deviamos todos herdar traços de personalidade dessa época em vez dos daquela em que nascemos?
  
     

terça-feira, 15 de junho de 2010

A minha Receita para os Fogos de Solstício - Litha

Fogueiras de São João em Idanha a Nova, foto de João Lopes Cardoso 



   Para uma noite de fogo mágico além de boa disposição não há nada como alimentar a fogueira com as ervas tradicionais: "Burganiça, louro e rosmaninho, para estalar e cheirar bem!" como diz a minha avó. Tenho saudades de saltar as fogueiras, lembro-me de passar a tarde a colher burganiça (à esquerda), mas confesso que não tenho qualquer memória do rosmaninho ou do louro, mas adorava voltar a experimentar. Este ano mesmo que, ao contrário de outros tempos, já não seja possível carregar carrinhas de caixa aberta de burganiça gostava de pelo menos queimar um pouco a apimentar a menos tradicional fogueira. Vamos ver se os exames deixam.
                                          Que os vossos festejos sejam felizes!!!

  

terça-feira, 8 de junho de 2010

O São João - excertos de Etnografia Portuguesa de Rocha Peixoto

Pavilhão - além das simples fogueiras na rua havia as fogueiras com
pavilhões construídos e decorados onde dançavam ranchos ensaiados,
com músicas e letras feitas de propósito.
Fonte: http://www1.ci.uc.pt/gfc/fogueiras.htm
  
  Olá, aqui vos deixo mais algumas citações de um artigo da autoria de Rocha Peixoto, desta feita sobre o São João. Um  festejo tradicional muito próximo da data do solstício estival e que, segundo o autor, assumia como carregado de reminescências  de um culto solar e fálico.
   “Na superstição actual é sagrada a água, da meia noite ao romper da alva, e, portanto, incorruptível; pão amassado nela dispensa o fermento; rapariga que com ela se lave fica mais escarolada; até, na tradição normanda, remoçam os velhos, só por apanharem as orvalhadas. Como na noite de S. João está benta, tira as febres e rebenta o cabelo aos calvos; é a água de longa vida; e entre todas as virtudes mais maravilhoso é o seu poder divinatório. Em Vila do Conde dirigem-se as raparigas à fonte, atiram-lhe uma pedra e cantam:

Vamos raparigas todas

À fonte de S. João,

Vamos atirar a pedra,

Ver se casamos ou não.

o que é afirmativo, nesse ano, se cai dentro. Conserva-se um bochecho de água na boca, na meia noite de S. João, até que se oiça o primeiro nome de homem, que será o do noivo; de vários papéis com nomes diversos e lançados na àgua, um se mostrará aberto ao outro dia , revelando o do desposado; [...]

   Na noite de S. João as orvalhadas purificam todas as ervas, mesmo as venenosa e as malfazejas. Enramalham-se os campos e os currais com as plantas colhidas então, para não dar mal aos gados nem o bicho nas sementeiras; a mulher que deseje o cabelo comprido e basto, corta-lhe as pontas e deposita-as no rebentão das silvas; rosmaninho e funcho, alecrim e sabugueiro, servem de para defumadoiros, afastam as trovoadas e livram a casa do raio; o alho afugenta o espírito maligno; o azevinho, que se vai colher dançando em roda, tocando e cantando, é uma erva de boa sorte; enfim:

Todas as ervas são bentas,

Na manhã de S. João,

Só o trevo, coitadinho,

Fica de rastos no chão.

   Menos o de quatro folhas. Esse, colhido na noite S. João e colocado sobre a pedra da ara, faz com que se despose a pessoa desejada.

   Das plantas tiram-se prognósticos relativos ao amor. Em certos países as raparigas compõem um ramalhete com nove flores diversas obtidas em outros tantos terrenos diferentes e colocam-no depois à cabeceira da cama, cuidando em seguida de dormir e sonhar; o que virem em sonhos eis o que se realizará. Consultam-se as plantas, procurando presságios acerca do esposo futuro, como se solicitam os santos dos nichos:

Oh meu santo Eliseu,

Casar quero eu.

ou se indaga das aves:

Cuquinho da ramalheira,

Quantos anos me dás de solteira.[?]

   Chamuscada uma alcachofra na fogueira e posta e posta depois ao relento no telhado, denunciará no outro dia, se reverdesce, a leal reciprocidade do afecto. E para avaliar em qual de ambos é mais intenso, cortam-se dois pedaços de junco muito iguais, que representam os amantes, um dos quais se mais cresceu, indica quem mais sente:

Dizes que me queres bem,

Ainda o hei-de de experimentar;

Na noite de S. João

Junco verde hei-de de cortar.

   Por fim o sentido fálico primitivo das festas transmitiu-se e ainda transparece nos mais insignificantes pretextos da colheita das ervas de virtudes:


Oh que lindo luar faz,

Para colher macela;

Vamos-la colher ambinhos,

Faremos a cama nela.”



   “[...] Depois dos vestígios dos cultos da água e das plantas distinguem-se ainda os que se filiam no fogo. O astro, iluminando neste dia todo o céu, tem em toda a festa que se lhe consagra, o símbolo nas fogueiras. É o galheiro ou facho da Beira Alta, nos outeiros, e as mais modestas laberedas das quintãs. [...]

   Como a festa é de triunfo e de fecundidade, à fogueira também se liga uma intenção benéfica ou divinatória. O nome do pobre que se liga uma intenção benéfica ou divinatória. O nome do pobre que recebe uma moeda atirada à fogueira do S. João será o do noivo que caberá à rapariga que deu a esmola. Saltando pelas fogueiras é bom dizer:

Fogo no sargaço,

Saúde no meu braço.



Fogo no rosmaninho,

Saúde no meu peitinho.

Etc.”
   Outras referências ao aspecto fálico do festival estariam segundo R. Peixoto noutras quadras que representam o Santo como um sedutor, algo inesperado e desconcertante no seio do catolicismo:

“S. João para ver as moças

Fez uma fonte de prata;

As moças não vão a ela

S. João todo se mata.”



“À porta de S. João

Nascem rosas amarelas;

S. joão subiu ao céu

A pedir pelas donzelas.



S. João diz que é velho,

É velho mas tem amores,

Que lhe acharam no bolso

Um raminho de flores.



S. joão fora bom santo

Não fora tão gaiato,

Levava as moças p’ra fonte

Iam três e vinham quatro.

Na noite S. João

É que é tomar amores,

Que estão os trigos no campo,

Todos cobertos de flores.”



“S. João adormeceu

Nas escadas do coro,

Deram as freiras com ele,

Depinicaram-no todo.”

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Às vezes é preciso Parar

  
   Há semanas horríveis! São aquelas semanas em que vivemos dias de 48 a 72 horas, em que nos sentimos doentes do corpo à alma, chumbamos a frequências e não se entregam trabalhos ou simplesmente preferiamos ter tido um zero. São aquelas semanas em que gritamos com as pessoas erradas, reencontramos cicatrizes antigas, rebenta um abecesso ao gato, achamos um corvo ferido e a cadela tem um parto dificil; perdemos as chaves de casa, e por onde quer que andemos fazemos os cães rosnar, e os bébés chorar. São aquelas semanas em que o ex namorado se lembra de nos informar que quer ir para a cama conosco, e no dia seguinte anda no centro comercial a passear com a mulher grávida; duas das nossas amigas decidem apaixonar-se e chorar baba e ranho, a net vai abaixo de 30 em 30 segundos, a senhoria aumenta a renda, o lava louça entope e a nossa tia descobre-nos no local errado, à hora errada. São aquelas semanas em que se não estivessemos a tentar sobreviver, certamente estavamo-nos a matar.
   Nestas semanas preciso de forças mas irónicamente o melhor remédio parece não ser café, mas sim parar. Pelo menos uns minutos ao fim do dia, quando travei mais uma batalha mas ainda não venci a guerra, e neste dia ainda há muito para lutar. Parar 15 minutos, que com sorte até já incluem e deslocação visto que o stress me faz voar... Parar para respirar, de olhos fechados, caída no pinhal ou no cimento de um recanto morto da grande babilónia ... Parar a ouvir, a cheirar e a sentir... a imaginar que ganho raízes ou estou dentro de um útero acolhedor. Quinze minutos para desapertar o nó que sinto na garganta, pedir aos músculos dos braços e pernas para pararem de tremer e baixinho num soluço chorar abraçada à Mãe.

  

domingo, 23 de maio de 2010

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Fogo de Belenos – fertilidade e sexo seguro



“No Imbolc, são movimentadas as energias que produzirão o ovo. No Ostara, o ovo é formado , e no Beltane, fertilizado”

   O sexo pode ser uma via de louvar a fecundidade, a paixão e o amor ou um meio para se atingir o extase, e tem, portanto, um lugar reservado em muitos cultos. 
   Devido ao seu significado o beltane é uma das épocas do ano em que mais se recorre ao sexo ritual no sentido literal do termo. Mas uma vez que não se trata apenas de uma experiência espiritual mas também social e fisica, que acarreta riscos; é também uma época em que devemos ser ainda mais auto-criticos e racionais em relação às nossas práticas.
   O sexo é divertido mas não deixa de ser um assunto sério, e se não for divertido, então mais sério o caso fica. Um coito desagradável, uma gravidez não planeada, uma DST, confusão de sentimentos ou o fim abrupto de um relação, são algumas das consequências mais usuais de uma decisão tomada de ânimo leve e definitivamente não são coisas muito agradáveis.
   Assim, que sentido faz a cópula à luz das fogueiras de belenos? Se o objectivo é louvar a fecundidade fará sentido recorrer a algum tipo de contracepcção ou método abortivo? Fará algum sentido louvar a paixão e amor sem ser com aquele que os desponta? E se essa pessoa não for adepta da mesma cosmologia? Qual a probabilidade de se atingir o êxtase com um individuo com o qual não temos confiança? O uso do preservativo pode estar fora de questão no louvor da fecundidade mas estará também no louvor das emoções? Uma pessoa que recusa o uso do preservativo e não nos apresenta provas médicas do seu estado de saúde, respeita a vida?

quarta-feira, 21 de abril de 2010

As Maias e o Maio Moço – 1º de Maio

   

    O texto que se segue foi extraído da obra Etnografia Portuguesa de Rocha Peixoto. Trata-se de um artigo publicado originalmente no jornal O Primeiro de Janeiro, do Porto, em 1 de Maio de 1894 sobre uma festa tradicional que ocorreria à entrada de Maio e que na opinião do autor assim como na minha continha significados pagãos anteriores ao catolicismo na P. Ibérica. A qualidade desta recolha etnográfica pode conter todas as fragilidades da recolha etnográfica da sua época e quanto a isso a meu ver nada pode ser feito, no entanto pareceu-me digno de ser citado e recordado.




“[...] As giestas são associadas ainda aos enfeites das Maias e do Maio moço. Em várias terras de Portugal, como na Provença, como em outras partes, costumava-se adornar uma criança com flores, sentá-la numa mesa e rodeá-la de raparigas que cantam, dançam e tocam adufes; quem passa é perseguido até que deixe um presente à Maia. Noutras os grupos dançam pelas ruas e pedem esmola; noutras ainda é um homem a cavalo ou um rapaz todo vestido de giesta florida e acompanhado de outros rapazes e de raparigas cantando:



Este Maio, moças,

Era boticário,

Vendeu a botica

P’ra comprar um saio.



O saio era roto,

Botica perdida;

Agora, meu Maio,

Procura tua vida.



dando vivas ao Maio e dizendo quadras semelhantes.

   No Algarve faz-se uma boneca de palha, a Maia, coberta de flores, e em volta da qual, à noite, as raparigas bailam e cantam:

O meu Maio-moço

Ele lá vem,

Vestido de verde

Que parece bem.



O meu Maio-moço

Chama-se João,

Faz-me guarda à porta

Como um capitão.

Etc.



   Em Lagos fazia-se uma procissão, no dia de hoje, em que ia um rapaz a cavalo, adornado de flores e jóias de empréstimo; como certo ano um fugisse é ofensivo perguntar a muita gente se já voltou Maio.

   Noutras províncias, e no Algarve principalmente, vai-se armar a Maia celebrando um banquete no campo, bricando-se e folgando-se até que, ao escurecer, a Maia desça do seu trono tapetado de verduras. É no mês de Maio que se cumprem as promessas no Algarve; é no dia 1 que se implora a proteção da Virgem às sementeiras; é ainda hoje o dia do enramalhamento dos currais para que não dê o quebranto ou não falte o alimento aos gados.

   Destas festas realizadas ao entrar o mês de Maio perdeu o povo a significação, não vendo nelas, naturalmente, os vestigios do velho mito solar em que o verão, entrando em luta com o inverno, acabava por vencê-lo. [...]”

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Incenso para Defumação

 

   Hoje acordei inspirada e capaz para uma defumação, já me andava a preparar há uns dias limpando a casa nos tempos livres. Bem sei que as luas têm os seus significados e indicações, mas quando a inspiração bate à porta acho por bem deixá-la entrar e assim foi. Ao som de uma musica apropriada, agarrei na minha caixa de incensos, no carvão, olhei para as minhas ervas e foi isto que saiu:

Incenso para Defumação

Olibano
Alfazema
Eucalyptus globulus (o mais comum em Portugal)
Eucalyptus citriodora
Menta

   Reduzir a pó o olibano em grão, e esmagar as restantes ervas secas. Depois é só queimar com carvão de auto-ignição ou uma brasa da lareira que eventualmente esteja por perto.
   As quantidades foram a olhometro e devem ser ao gosto de cada um, mas aconselho 2 partes de olibano, para uma de alfazema.
  Tem um aroma muito agradável, o que nem sempre acontece nos incensos para este fim e respeita a simbologia enunciada por Scott Cunningham em O Livro Completo de Óleos, Incensos e Infusões.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Dar um rosto à deusa

   
   As pessoas são contraditórias, afirmam constantemente incongruências sem aparentarem qualquer tipo de conflito interno. Isto é especialmente verdadeiro no campo do mágico religioso: "Não acredito em bruxas, mas lá que as há, há!", "Não sou nada católica, não ligo nada a Deus e essas coisas, mas pela Nossa Senhora de Fátima tenho uma devoção enorme, já me ajudou muito." Esta ultima afirmação fascina-me especialmente, mais uma vez deparo-me com um fenómeno curioso. Os católicos, reconhecem Deus como o todo poderoso mas relacionam-se muito mais intimamente com o santos, porquê? Porque se sentem as pessoas mais próximas dos santos que do seu deus omnipotente?
  
   A resposta que vos sugiro surge na obra conjunta de Diana L. Paxon e Marion Zimmer Bradley, A Sacerdotiza de Avalon: - Porque é dificil amar uma coisa distante e sem rosto. Proibidos de representar Deus os católicos acabam por praticar idolatria com os santos pois não resistem a esta necessidade humana de criar representações. E eu também não escapo a esta necessidade, antes de vir para Coimbra todas as noites esticava o pescoço fora da janela e procurava a lua. Mas agora que os meus pais mudaram de casa, nem ao fim de semana posso fazê-lo e senti a necessidade de um novo rosto.
   
   Vai daí voltei a tropeçar numa estatueta que deambula pela casa desde a minha infância. Uma mulher envolta num manto azul, com um crescente aos pés e rodeada por crianças, que muito bem podia ser a junção das duas facetas Donzela e Mãe.  Trata-se da Senhora da Imaculada Conceição, protectora das crianças, um sincretismo sedutor não estivesse a imagem benta.
  
   Portanto a busca continua  e embora tenha encontrado diversas imagens lindíssimas na net quero algo mais palpável e pessoal. Penso que vou seguir a sugestão Jeane do Witch Clubhouse e criar eu mesma um rosto com massas e grãos pois quero tê-la na minha cozinha.



O plural de deusa é Deusa

  
  Sou mulher, consigo contar a história da vida pelo feminino e por isso falo em deusa. Deusa ou Deusas, no singular ou no plural, em verdade vos digo não há assim tanta diferença, pois é como a minha mãe que é católica me ensinou: "todas as virgens do mundo são a virgem Maria, mãe de Jesus". Todos os deuses podem conjugar-se num deus, todas as deusas, numa deusa e tudo isto num unico principio criador.

Podemos ver o mundo em panoramico...

"A Deusa é tudo o que há na Natureza
e tudo na Natureza é sagrado
Olha... aquele é o seu rosto
Escuta...esta é a sua voz
Ela é tudo o que é belo e o que é horrível também
A Deusa mantém tudo em equilíbrio
O bem e o mal, a morte e o renascimento, o predador e a presa
Sem ela o caus e a destruição prevalecem"
(filme The mists of Avalon dirigido por Uli Edel) 


...ou por partes,
"Eu sou a flor que desabrocha no ramo
Eu sou o crescente que coroa o céu
Eu sou a lu que cintila na onda
e a brisa que arqueia as ervas novas.
Homem algum jamais me possui,
e todavia sou o fim de todo o seu desejo.
Eu sou a caçadora e a sabedoria sagrada, 
Espirito da Inspiração e Senhora das Flores [...]"

"Eu sou o sol em todo o seu esplendor
e o vento quente que amadurece o grão.
Entrego-me na altura e na estação própria,
E produzo abundância.
Eu sou amante e mãe dou à luz e devoro,
Eu sou a amante e a amada
e o meu ventre é uma grande taça"

"Eu sou o quarto minguante, cuja a foice colhe as estrelas.
Eu sou o sol quando está no poente
e o vento frio que pronuncia as trevas
Estou madura de anos e de sabedoria;
Vejo todos os segredos para além do véu.
Eu sou Bruxa e Rainha das Colheitas, Feiticeira e Sábia,
e um dia tu hás-de pertencer-me..."
(Marion Zimmer Bradley)

...dividindos por funções, significados, panteões e atribuições pessoais criando sem medo um quadro conceptual mais estável para nós próprios porque se há moda de Jung os deuses são ideias então este é um direito que me assiste.



  

quarta-feira, 24 de março de 2010

Outras Rodas II - A Roda das Colheitas (plantas mágicas e medicinais)



  As culturas animista/xamânicas falam muitas vezes de plantas sábias referindo-se a plantas medicinais e mágicas. As plantas são mágicas por posuírem poderes divinatórios, abrirem as portas ao conhecimento extático, funcionarem como amuleto ou estarem associadas a alguma divindade.  Para mim que gosto muito de as conhecer esta é uma visão lindíssima e há de facto muito a aprender. Outro dia tracei a roda do ano e preenchi-a com as épocas de colheita de algumas das plantas que mais utilizo e assim ficou bem explicito o ciclo de regeneração da Terra. A mãe pede-nos uma trégua nos meses de Inverno mas oferece-nos fartura mais de metade do ano, sinto-me grata por isso. Aproveitá-la é uma oportunidade ao nosso dispor mas requer sabedoria e respeito.
   Aqui vos deixo uma listagem de algumas das plantas que eu própria colho fora do meu quintal e respetiva simbologia e data de colheita. Mas atenção! Nos últimos anos a colheita já se chegou a atencipar um mês em relação à data tradicional, pelo que devem estar atentos ao ritmo da terra. Por outro lado a simbologia mágica que apresento é meramente indicativa, quanto mais pesquisarem sobre o assunto mais vão encontrar e talvez até contraditórios. Por isso não se stressem e sigam a vossa intuição, e visto que a visualização é tão importante nestas coisas a meu ver não se perde nada em seguir associações pessoais.
                                                                                        

Regras Básicas

  1. Assentar ou reavaliar os seus conhecimentos fitoterapeutico em literatura científica recente.

  2. Usar para fitoterapia apenas plantas que conhece bem e se apresentam sãs. 

  3. Respeitar sempre as dosagens e modos de preparação e ter sempre em conta os avisos a respeito da sua tóxicidade e contra indicações.

  4. Não colher plantas protegidas ou em vias de extinção (variável de região para região).

  5. Colher quantidades modestas sem colocar em risco a sobrevivência da planta ou colónia (as plantas devem ser usadas no prazo máximo de 1 ano).

  6. Colher de manhã em dias de sol depois de o orvalho evaporar.

  7. Secar totalmente à sombra e só depois armazenar.


Alecrim (Rosmarinus officinalis)

Colheita: flores no auge da floração (Maio e Junho), folhas (todo o ano) 
Partes usadas: folhas e flores
Aplicações: fitoterapia, sachês, defumação
Simbologia: saúde, amor, purificação

Alfazema (Lavandula officinalis)

Colheita: Maio e Junho
Partes usadas: flores (fitoterapia) ou toda a planta  
Aplicações: fitoterapia, sachês, óleos, condimento
Simbologia: felicidade, amor, paz, purificação, protecção


Camomila-vulgar / Margaça-das-boticas
(Chamomilla recutita / Matricaria Recutita)

Colheita: Primavera
Partes usados: Capítulos (flores)
Aplicações: fitoterapia, tisana, cosmética, óleo, sachês
Simbologia: amor, purificação


Carvalho-roble (Quercus robur)

Colheita: Abril e Maio (casca), Outono (frutos)
Partes usadas: casca dos ramos jovens finamente cortada e esmagada (fitoterapia)
Aplicações: fitoterapia e uma enormidade de outros usos etnobotânicos
Simbologia: sabedoria, longevidade, força, a bolota devido ao seu formato fálico é associada à virilidade e fertilidade masculina


Cidreira (Mellissa officinalis)

Colheita: de Julho a Setembro durante a floração
Partes usadas: folhas
Aplicações: fitoterapia, tisana, sachês
Simbologia: purificação, amor 


Giesta (Cytisus scoparius)

Colheita: Maio e Junho (flores ao desabrochar)
Partes usadas: flores (fitoterapia) e ramagem
Aplicações: fitoterapia, vassouras
Simbologia: está associada aos festejos do 1º de Maio - Beltane 


Hipericão (Hypericum perforatum)

Colheita: Verão
Partes usadas: sumidades floridas
Aplicações: fitoterapia, sachês
Simbologia: planta solar associada a S. João e portanto ao solsticio de Verão - força, vitalidade




Hortelã Pimenta (Mentha x piperita)

Colheita: Verão
Partes usadas: folhas
Aplicações: fitóterapia, tisanas, óleo, sachês
Simbologia: saúde, amor, purificação, protecção, potencia a percepção psíquica 


Loureiro (Laurus nobilis)

Colheita: Verão
Partes usadas: Folhas e frutos (só devem ser usados secos antes disso contêm cianeto)
Aplicações: fitoterapia, condimento, Foguerias de São João (ramos com bagas)
Simbologia: força, clarividência


Lúcia-lima (Aloysia triphylla)

Colheita: Julho e Outubro
Partes usadas: folhas
Aplicações: tisanas, óleo, sachês
Simbologia: amor, purificação


Lúpulo (Humulus lupulus)

Colheita: Outono quando ficam amarelo-esverdeada
Partes usadas: flores femininas
Aplicações: fitoterapia, cerveja
Simbologia: na Mordóvia (Rússia) é associado à fecundidade
Oliveira (Olea europacea)

Colheita: Entre Março e Abril (folhas antes da floração), Novembro e Dezembro (fruto)
Partes usadas: folhas e fruto
Aplicações: fitoterapia, alimentação, óleo com diversas utilidades, sachês
Simbologia: paz e a meu ver também à prosperidade


Mangerona (Origanum majorona)

Colheita: de Julho a Setembro
Partes usadas: Sumidades floridas
Aplicações: fitoterapia, condimento
Simbologia: felicidade, amor


Oregão-vulgar (Origanum vulgare)

Colheita: de Julho a Setembro
Partes usadas: sumidades floridas
Aplicações: fitoterapia, condimento, sachês
Simbologia: felicidade


Papoila-das-searas (Papaver rhoeas)

Colheitas: entre Maio e Junho
Partes usadas: Pétalas
Aplicações: fitoterapia, sachês
Simbologia: sorte mas eu nunca me esqueço do seu rubor


Pilriteiro (Crataegus laevigata)

Colheitas: Abril e Junho (flores) e Outono (fruto - pilrito)
Partes usadas: sumidades floridas(em botão ou a desabrochar) e frutos
Aplicações: fitoterapia, alimentação, sachês,
Simbologia: planta sagrada do Beltane


Salva (Salvia officinalis)

Colheitas: no Verão pouco antes da floração ou no Outono
Partes usadas: folhas
Aplicações: fitoterapia, condimento, defumação, óleo, sachês
Simbologia: protecção e espiritualidade


Silva (Rubus fruticosus)

Colheita: na Primavera antes da floração
Partes usadas: folhas jovens e tenras (fitoterapia) e frutos
Aplicações: fitoterapia, alimentação
Simbologia: força, vitalidade

Silva-macha (Rosa canina)

Colheita: entre Junho e Setembro
Partes usadas: frutos e flores (apenas para sachês)
Aplicações: fitoterapia, culinária, tisanas, sachês
Simbologia: tal como as restantes rosas está associada ao amor, mas nas rosas existem várias cores como na vida vários amores, um aspecto a ponderar.


Tília (Tilia cordata, T. platyphyllos e seus hibrídos)

Colheita: Junho depois de dois terços da planta terem florido 
Partes usadas: inflorescências e alburno
Aplicações: fitoterapia, tisanas, sachês
Simbologia: amor, árvore das fadas


Tomilho-vulgar (Thymus vulgaris)

Colheita: inicio da floração
Partes usadas: folhas e sumidades floridas
Aplicações: fitoterapia, condimento, óleo, sachês
Simbologia: força, clarividência


Urtiga (Urtica dioica)

Colheita: Maio e Junho
Partes usadas: folhas (fitoterapia e alimentação) e raízes (fitoterapia)
Aplicações: fitoterapia, alimentação


Urze (Calluna vulgaris)

Colheita: entra Julho e Outubro
Partes usadas: sumidades floridas
Aplicações: fitoterapia, fogueiras de S. João, sachês (burganiça)  
Simbologia: associada ao solstício


Videira (Vitis vinifera tinctoria)

Colheita: Outono
Partes usadas: folhas quando vermelhas (fitoterapia), frutos
Aplicações: fitoterapia, alimentação, sachês
Simbologia: associada aos cultos extáticos - libertação



 
Boas Colheitas!!!

sábado, 13 de março de 2010

El Primer Sol de Primavera - First Sun of Spring


El Primer Sol de Primavera - First Sun of Spring
http://www.metrophotochallenge.com/br/photo/174065
  
   Tal como o resto da bicharada, nesta época do ano ganho vitalidade e quando me deito ao sol na erva sentindo o mundo, sinto-me também eu pronta a entrar no cio. Sei que não sou a única, todas as primaveras há quem me procure, velhos amores, incandescências apagadas que se sopram em vão.
   Este tem sido um Inverno rigoroso, mas finalmente senti uns raios de sol mais quentes e acordei com manhãs mais luminosas. Em breve poderei entrar no meu horário primaveril e despertar todos os dias um pouco antes do sol nascer, tomar um duche e ver o sol nascer enquanto bebo uma deliciosa chavena de chá verde. 



   O nascer do sol é o momento ideal para louvar a vida e encher-nos de energia para o dia. Pode parecer dificil que levantar tão cedo nos desperte, mas na realidade é muito menos extenuante para o nosso corpo que acordar tarde e ir a correr para o trabalho. Experimente dar a si próprio um momento de quietude na frescura da manhã com um exercicio meditativo e/ou de respiração, vai ver o quão gratificante este momento pode ser. 

 
Meditação atenciosa

1.. Antes de começar, encontre um local silencioso em que não vá ser pertubado.


2.. Sente-se e feche os olhos.

3.. Concentre-se na respiração, mas inspire e expire normalmente. Não tente controlar ou alterar a respiração deliberadamente. Apenas observe.

4.. Ao observar a respiração, vai ver que ela muda. Haverá variações na velocidade, no ritmo e na profundidade, e pode ser que ela pare por um momento. Não tente provocar nenhuma alteração. Novamente, apenas observe.

5.. Pode ser que você se desconcentre de vez em quando, pensando em outras coisas ou prestando atenção aos ruídos externos. Se isso acontecer, desvie a atenção para a respiração.

6.. Se durante a meditação você perceber que está se concentrando em algum sentimento ou expectativa, simplesmente volte a prestar atenção na respiração.

7.. Pratique esta técnica durante quinze minutos. Ao final, mantenha os olhos fechados e permaneça relaxado por dois ou três minutos. Saia do estado de meditação gradualmente, abra os olhos e assuma sua rotina.
Do livro: Saúde Perfeita
Dr. Deepak Chopra - Editora Best Seller.
          Disponivel em: http://www.4shared.com/file/33495735/11cafe97/Meditao_atenciosa.html

 



terça-feira, 2 de março de 2010

Outras Rodas I - Apontamento sobre a Roda da Medicina


   Devia ter uns 16 anos quando o meu irmão me chamou para um passeio pela mata. Fomos os dois em silêncio por muito tempo até que me disse o que ia fazer: - "Preciso de fazer uma oferênda de tabaco, vou ensinar-te a fazê-lo." Achei estranho pois nunca lhe pedira que me ensinasse e o meu irmão age na maior do tempo como racionalista mas prossegui em silêncio. Chegados ao local pediu-me que verificasse se havia alguém nas próximidades, não vi ninguém e pensei no que me ensinara na infância "No mato temos sempre milhares de olhos voltados para nós. Desconfia quando não vires ninguém [homens e animais]". Ainda assim tentámos relaxar, o cantar dos pássaros dizia-nos que tinhamos pouco tempo até ao anoitecer, não podiamos esperar.
   O meu irmão traçou então um círculo no chão, assinalou com os braços de uma cruz central os 4 pontos cardeais, e de seguida ofereceu um pouco de tabaco a cada direcção, tendo por último enterrado-o no centro do círculo. "Esta é a roda da medicina" - disse-me, e daí em diante comecei a traçá-la com uma paixão intrigante. Hoje é para mim um dos símbolos mais poderosos que conheço e um sincretísmo com círculo mágico wiccano.


  "Também conhecida como o arco sagrado, a roda da medicina é usada para ajudar a meditação e é um símbolo das crenças dos indigenas da América. É um circulo dividido por duas linhas, que simbolizam a estrada azul do espírito  (de leste para oeste) e a estrada vermelha da vida (de sul para norte).
   As quatro secções resultantes do círculo representam as estações do ano. Tal como sucede com o círculo de pedra, cada ponto cardeal está associado à direcção da bússola e a atributos particulares que podem ser relacionados a épocas e situações na nossa própria vida. O Leste é o lugar da inspiração e o começo de uma nova ideia. Progredindo em torno da roda, a direcção seguinte é o Sul, relacionado com a consolidação do ciclo. O Oeste é o lugar onde podem ser colhidos os frutos de uma iniciativa. A direcção final é o Norte, o lugar para recuperar e reflectir.
   O circulo pode ser usado para estabelecer uma relação com a sua posição num dado ciclo e para encontrar o melhor percurso da acção a tomar para ver um resultado natural: para decidir se devia estar  a começar algo novo ou para se concentrar em alimentar aquilo que tem no presente, aceitar as vantagens de uma situação ou recolher a sua energia."    
Fonte: ADCOCK, William (2001) Xamanismo - Rituais Para as viajens do espírito e a criação de espaços sagrados. Lisboa. Editorial Estampa: p.25

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O Porquê de uma Oferenda

  
   Existem muitas razões para se fazer uma oferenda mas no fundo o que está em causa é um sistema de troca. Frequentemente realizadas não apenas como retribuição por um favor mas também como garantia de que se será favorecido, as oferendas são grandemente questionadas, e com alguma razão, pelos mais racionalistas. 
   Perguntaram-me porque faço oferendas à Terra, Gaia, Deusa...  se sei que não me cai um raio em cima se não o fizer e que isso não impedirá a ocorrência de catástrofes. Respondi simplesmente: - Por educação!
   Sim, para mim é fundamentalmente uma questão de boa educação. Eu olho para o mundo e percebo que a minha existência tal como a de todos os seres vivos depende de como funciona aquilo a que chamamos Cosmos. Nesse momento de profundo esclarecimento em que me sinto tão ligada à Terra e ao Todo, sinto a mesma obrigação que se sente em dizer um "obrigado" a quem nos cede passagem, ou um "bom dia" a quem passa por nós sorridente, ou até de levar a chavena da esplanada para o balcão naquele café cujo o dono é tão simpático. São pequenas coisas que não mudam nada, nem prejudicam ninguém e que nos fazem sentir bem, então porque não fazê-las?
   Por outro lado sinto que as minhas oferendas são hipócritas se o meu estilo de vida não é minimamente ecológico, pelo que não é algo que faça de animo leve. Da mesma maneira que penso muito bem no que vou oferecer. Normalmente ofereço, alimentos, especiarias ou queimo simplesmente um pau de incenso numa noite em que me sinto estarrecida pelo luar. Nada de muito suptuoso, sacrificar grandes quantidades destes recursos seria um contra-senso, pois a produção destes bens também tem custos para a Natureza. Uma oferenda é para mim sempre um acto simbólico de partilha, que simultaneamente resulta e conduz à reflexão.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Survival International - manifesto a pretexto do Avatar


    A Survival é uma organização internacional que existe desde 1969 e se dedica ao apoio de povos tribais de todo o mundo, apostando na educação, no direito e em campanhas e constítui um suporte de divulgação essencial para estes povos. No seu site http://www.survivalinternational.org/ pode aceder a muita informação referente ao seu trabalho e até fazer um donativo.
  Hoje foi publicitada no www, programa da antena3, pela produção de um documentário  que chama a atenção para o facto de que todos se comovém com o Avatar mas, poucos sabem que todos os dias os interesses de grandes empresas e de políticos corruptos desalojam, descaracterizam, exploram e matam directa ou indirectamente seres humanos (http://www.survivalinternational.org/films/mine). 
    Sim, seres humanos, criaturas exactamente da mesma espécie animal que o leitor, exactamente com o mesmo grau de encefalização e consequente capacidade de pensar que sua excelência. Seres que tal como vós são possuidores de uma cosmologia, uma moral, costumes e uma estrutura social complexa com instituições. Seres que como sua excelência nasceram integrados numa sociedade ligada a um território que é seu por ocupação temporalmente bem superior ao uso capeão.
   "Um país não pode parar porque meia dúzia de gajos não querem mudar de casa!" nem me venham com este tipo de argumentos. Se a China quisesse comprar Portugal, dizendo-lhe que pode mudar-se para um bairro social qualquer, noutro lugar qualquer e que se não aceitar a sua casa será demolida e será forçado a abandonar o território, pois este foi comprado à União Europeia, o senhor queria fazer negócio? Pois... mas é assim que frequentemente a coisa funciona.
   As taxas de suicídio entre indígenas a trabalhar em plantações na Amazónia são elevadíssimas, sabe porquê? Porque o mundo deixou de fazer sentido para essas pessoas. Tal como no raio do filme dos nativos azuis, o mundo perdia o sentido quando se destruía a árvore dos espíritos. Se percebe no filme, porque raio não percebe no mundo real?
   Não sabia? Acontece, há muita gente que não quer que se saiba... Não é o único a estar ignorante. No estado do Vaticano um jornalista também perdeu tempo a criticar o filme Avatar por, segundo este senhor, representar uma falsa religião ligada à naturesa, toda a questão humanitária passou-lhe ao lado.
   Acha que a mensagem do filme até era mais ecológica? Tótó... então não vê que os problemas ambientais são problemas humanitários? Acha mesmo que os ambientalistas só querem um mundo mais bonito? Acorde para a vida.
   Se gosta de crianças, ou acha que um dia até vai querer ter filhos e netos e acha muito natural que estes também os venham a ter, então porque raio não se preocupa com a contaminação do ecossistema? Não vê que está a contaminar também os seus filhos, por exemplo, por via da alimentação?
   Também não sabia nada disto...? mais uma vez há muitos interessados em que não saiba... Mas agora já sabe. 
Agora já pode fazer alguma coisa!!!  

  

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Jejum e religiosidade - os erros que cometi




   Perdoem-me um texto tão longo mas estou cansada de tentar encolhê-lo. Já tentei escrever este post de mil maneiras e nenhuma me sai bem. Não percebo o porquê de tanta dificuldade, afinal a mensagem é simples: cuidado com as obecessões, não usem a religiosidade como desculpa e motivação para um No Food ou uma iniciação sexual vazia de sentimentos e respeito por vocês próprios e pelos outros, cuidado com os sacríficios e as automutilações... Auto-iludida eu já fiz isso tudo, e de que me valeu? A deusa não me quiz, foi isso o que me valeu, não se pode servir a deusa doente. Os gregos tinham o lema "Mens Sana in Corpore Sano", juntemo-lhes o "Anima Sana".

- Por favor não cometam os erros que eu cometi!!!


   Desde criança havia em mim três fomes: a fome do espírito, a fome de aceitação social e a fome de alegria.

• A fome do espirito


   Que tola que eu fui em menosprezar-me, poucas pessoas fazem o que eu fiz e ainda menos com aquela idade. Quantas crianças debateram mentalmente o catolicismo, as injustiças do mundo e o espírito da natureza no recreio da escola primária? Quantas pessoas chegaram à pré adolescencia com as bases de uma lógica do universo formada? Quantas, quando numa pesquisa ocasional, descubriram que afinal havia uma religião semelhante, exitaram e tiveram a coragem de concluir que NÃO era a mesma coisa, voltando a ficar sós?

   Fiz tudo isto, e irónicamente a detestar filosofia..., mas continuei a detestar-me, a achar que nascera sem dons. À minha volta orbitávam esotéricos, pessoas que viam, sentiam e pressentiam coisas. E eu nada. Não via, não sentia e não era certamente um oráculo. Nem sequer era capaz de me entender com esses esotéricos que invejava, e tudo devido à minha terrível mania de pensar. Que burra que eu fui em não perceber que a minha capacidade para ver sempre em simultâneo o lado do crente e do racionalista e conjugá-los era o melhor que havia em mim


A fome de aceitação social


   Queria ser como as outras raparigas da minha idade, ter muitos amigos, um telemóvel que nunca pára, um corpo de mulher e rapazes que me desejassem (era assim que eu as via). Ter juizo e conversas inteligentes nunca me haviam trazido nada disso pelo que estava disposta a parar de pensar, de me instruir, enfim a estupidificar para vender-me a um modelo que apesar de tudo condenava, mas que atingido prometia aceitação.



A fome de alegria (luz própria)


   Por tudo isto e mais qualquer coisa que nunca soube identificar, desde criança que me sentia sempre profundamente infeliz. Quase todos os dias pensava que tinha todas as razões para ser feliz mas simplesmente não conseguia sê-lo, o porquê não sabia mas era certamente culpa minha. Invejava aqueles que tinham dores de verdade porque esses ao menos podiam queixar-se. E assim um dia com uma agulha arranhei a pele lentamente mimetizando os que se automutilavam apenas para o meu corpo ficar de acordo com o que sentia.




   Insaciável descobri na fome o remédio para estas outras fomes, um remédio venenoso que aos poucos e poucos adoeceu-me do corpo à alma e um dia podia ter-me morto.


   Não correspondo exactamente ao retrato de um anoréctica ou de uma bulimica o que é muito natural pois há muitos mais distúrbios alimentares além destes de que os media estão sempre a falar.

   O que me aconteceu foi simples, desde criança ouvira falar de pessoas que deixavam de comer para emagrecer, de pessoas que induziam o vómito, tomavam diuréticos, laxantes e estimulantes... e eu muito deliberadamente, a fim de perder a barriga, usei as suas técnicas porque, como mostrava a TV, resultavam. A primeira com resultados absolutos e as seguintes como remédio de emergência, métodos de compensação.

   Durante anos nunca pensei estar doente, achava que essas pessoas que via na TV não tinham consciência do que estavam a fazer nem do seu peso real. Eu tinha, eu sabia o que estava a fazer, não estava obcecada pela ideia de pesar 25kg, ficaria pelos 47, ou melhor, pelos 45, por uma questão de segurança. Nem tão pouco pensava que o meu sucesso profissional depende-se da minha aparência, ou que nunca viria a ser amada. Que um homem me amasse era perfeitamente possível quando fosse adulta, mas o prazer de suscitar paixões, esse ser-me-ia vedado por um peito pequeno, barriga de barril e coxas de frango, que a continuar assim iria ter. Não estava doente e poderia ter optado pelo exercício se não fosse a minha falta de jeito que me tornava uma palhaça nas aulas de Educação Fisica e me ostracizara socialmente desde a infância. Oh a falta de jeito... mais um defeito que apenas o recurso à fome podia combater.


Venus Evolution

   Vendida a alma ao diabólico estereótipo de beleza e sucesso ocidental, restou apenas um campo em que ainda me desenvolvia, o religioso. As duas lutas cruzaram-se numa busca pela perfeição no meu 10º ano. Como eu nunca me entendia com os esotéricos evitava os seus manuais lendo-os parcialmente (apenas capítulos referentes à roda do ano celta), quando lia. A inspiração e modelos surgiam-me espontaneamente e por vias indirectas como na leitura do romance As Brumas de Avalon e seus subsequentes de Marion Zimmer Bradley, que bebem muitos dos princípios da wicca. Enfim sem mais rodeios em busca de motivação comecei a imitar o jejum das sacerdotizas de Avalon, confiante de que me abriria as portas para a espiritualidade e me faria perder peso.

   Como seria de esperar funcionou, sentia-me mais intuitiva, mais encantadora, mais perto da deusa cujo o símbolo omnipresente era a lua. Mas foi tudo efémero, depois quando fui apanhada pelo ciclo vicioso, ”No food-compusão-No food”, desmoronou-se tudo. Por um lado tentava fazer jejum simplesmente para parar de comer, sempre com a esperança de que a seguir conseguiria normalizar a minha alimentação e parar de engordar. Por outro porque estava convicta que a Deusa só me estava acessível se jejua-se, essa era a única forma que eu tinha de aumentar as minhas capacidades, de me aproximar ligeiramente dos esotéricos natos. Tudo em vão, há medida que o tempo passava os períodos de jejum eram cada vez mais curtos e os de hiper-ingestão mais longos.

   Não engordava significativamente mas também não emagrecia e essencialmente sofria. Convenci-me que estava condenada a ser gorda e indesejada e que era tudo uma questão de tempo. Assim um belo dia decidi que deixaria de ser virgem no prazo de um ano. O acaso trouxe-me um voluntário e eu aproveitei, não quiz saber que tivesse namorada, que fosse intelectualmente desinteressante, que não respeitasse a minha vontade, nem mesmo que apesar de personificar o meu estereótipo de beleza masculina chegada a hora não me excitasse, marquei o dia e fui.
   
    A 19 de março de 2007, o mais próximo do equinócio que se pode arranjar pedi protecção à Deusa e deitei-me com um homem que não conhecia e em quem não confiava. Achava que estava a fazer um rito de fertilidade mas na verdade estava a prestar culto à minha própria presunção e à visão redutora que tinha do meu próprio ser. E se o sei hoje é porque a deusa ou a minha consciência, se assim o preferirem, me disse.
  
   Depois deste 1º contacto tão intenso e profundo digno de qualquer romance esotérico e que me mudou para sempre, fez-se um silêncio da sua parte que me atormentava tanto como a comida. Sem sucesso tentava reaproximar-me, e tentei tanto que certa noite consegui. Andava tão desligada pela doença que só no dia seguinte percebi que a face que brilhava no céu era a anciã e que fora com ela que me tinha encontrado. Na altura a sua mensagem pareceu-me terrível, e entre outras coisas disse-me que não me queria para sua sacerdotisa.

   Fiquei de rastos, andei mais um ano convicta de que não tinha qualquer tipo de religiosidade, pensava que talvez devesse parar de pensar também neste campo, a fim de me conseguir converter ao cristianismo. Mais disparates!!!

   O que eu precisava era de tratar o meu distúrbio alimentar, assim que comecei a melhorar percebi tudo de maneira diferente e a deusa sorriu-me de novo. Hoje gosto de mim como sou! E sei que não há coisas a mudar mas sim a aprender. Tenho ainda um longo caminho pela frente, na verdade vou ter sempre, porque a luta é diária.




   Enfim... sentia-me na obrigação de passar a mensagem. Agora só mais duas informações úteis:

Consulta de disturbios alimentares dos H.U.C.:
http://www.huc.min-saude.pt/psicdisalimentares/index.html

e esta leitura esclarecedora



P.S.: Não considero a obra de Marion Zimmer Bradley Pró Ana ou Pró Mia ou de qualquer outro distúrbio, é apenas uma série de romances que a minha mente doente deturpou