Mostrar mensagens com a etiqueta religião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta religião. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O yoik - um cantar sagrado em louvor da Vida

  
Olá!
   Hoje deixo-vos dois videos sobre o yoik/joik que é apenas uma das forma de cantar tradicionais da cultura Sami mas talvez a mais popular. Como nos explicam no primeiro video (a partir dos 03:08), a prática do yoik é na sua origem ligada à religiosidade tradicional dos Sami, bastaria isso para que eu aqui publicasse algo sobre ele, mas o que mais me atraiu no yoik foi o facto de não incluir obrigatóriamente palavras. Trata-se de uma forma de expressão essencialista, em que nos envolvemos realmente com os elementos e expressamos sentimentos e emoções e por isso tão fácil de incluir nas nossas práticas pessoais. No fundo parece-nos familiar, não? Quantas vezes já cantarolamos uma melodia ao olhar pela janela num frio dia de inverno ou porque acordámos cheios de energia num dia cheio de sol?  


quarta-feira, 7 de abril de 2010

Dar um rosto à deusa

   
   As pessoas são contraditórias, afirmam constantemente incongruências sem aparentarem qualquer tipo de conflito interno. Isto é especialmente verdadeiro no campo do mágico religioso: "Não acredito em bruxas, mas lá que as há, há!", "Não sou nada católica, não ligo nada a Deus e essas coisas, mas pela Nossa Senhora de Fátima tenho uma devoção enorme, já me ajudou muito." Esta ultima afirmação fascina-me especialmente, mais uma vez deparo-me com um fenómeno curioso. Os católicos, reconhecem Deus como o todo poderoso mas relacionam-se muito mais intimamente com o santos, porquê? Porque se sentem as pessoas mais próximas dos santos que do seu deus omnipotente?
  
   A resposta que vos sugiro surge na obra conjunta de Diana L. Paxon e Marion Zimmer Bradley, A Sacerdotiza de Avalon: - Porque é dificil amar uma coisa distante e sem rosto. Proibidos de representar Deus os católicos acabam por praticar idolatria com os santos pois não resistem a esta necessidade humana de criar representações. E eu também não escapo a esta necessidade, antes de vir para Coimbra todas as noites esticava o pescoço fora da janela e procurava a lua. Mas agora que os meus pais mudaram de casa, nem ao fim de semana posso fazê-lo e senti a necessidade de um novo rosto.
   
   Vai daí voltei a tropeçar numa estatueta que deambula pela casa desde a minha infância. Uma mulher envolta num manto azul, com um crescente aos pés e rodeada por crianças, que muito bem podia ser a junção das duas facetas Donzela e Mãe.  Trata-se da Senhora da Imaculada Conceição, protectora das crianças, um sincretismo sedutor não estivesse a imagem benta.
  
   Portanto a busca continua  e embora tenha encontrado diversas imagens lindíssimas na net quero algo mais palpável e pessoal. Penso que vou seguir a sugestão Jeane do Witch Clubhouse e criar eu mesma um rosto com massas e grãos pois quero tê-la na minha cozinha.



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Jejum e religiosidade - os erros que cometi




   Perdoem-me um texto tão longo mas estou cansada de tentar encolhê-lo. Já tentei escrever este post de mil maneiras e nenhuma me sai bem. Não percebo o porquê de tanta dificuldade, afinal a mensagem é simples: cuidado com as obecessões, não usem a religiosidade como desculpa e motivação para um No Food ou uma iniciação sexual vazia de sentimentos e respeito por vocês próprios e pelos outros, cuidado com os sacríficios e as automutilações... Auto-iludida eu já fiz isso tudo, e de que me valeu? A deusa não me quiz, foi isso o que me valeu, não se pode servir a deusa doente. Os gregos tinham o lema "Mens Sana in Corpore Sano", juntemo-lhes o "Anima Sana".

- Por favor não cometam os erros que eu cometi!!!


   Desde criança havia em mim três fomes: a fome do espírito, a fome de aceitação social e a fome de alegria.

• A fome do espirito


   Que tola que eu fui em menosprezar-me, poucas pessoas fazem o que eu fiz e ainda menos com aquela idade. Quantas crianças debateram mentalmente o catolicismo, as injustiças do mundo e o espírito da natureza no recreio da escola primária? Quantas pessoas chegaram à pré adolescencia com as bases de uma lógica do universo formada? Quantas, quando numa pesquisa ocasional, descubriram que afinal havia uma religião semelhante, exitaram e tiveram a coragem de concluir que NÃO era a mesma coisa, voltando a ficar sós?

   Fiz tudo isto, e irónicamente a detestar filosofia..., mas continuei a detestar-me, a achar que nascera sem dons. À minha volta orbitávam esotéricos, pessoas que viam, sentiam e pressentiam coisas. E eu nada. Não via, não sentia e não era certamente um oráculo. Nem sequer era capaz de me entender com esses esotéricos que invejava, e tudo devido à minha terrível mania de pensar. Que burra que eu fui em não perceber que a minha capacidade para ver sempre em simultâneo o lado do crente e do racionalista e conjugá-los era o melhor que havia em mim


A fome de aceitação social


   Queria ser como as outras raparigas da minha idade, ter muitos amigos, um telemóvel que nunca pára, um corpo de mulher e rapazes que me desejassem (era assim que eu as via). Ter juizo e conversas inteligentes nunca me haviam trazido nada disso pelo que estava disposta a parar de pensar, de me instruir, enfim a estupidificar para vender-me a um modelo que apesar de tudo condenava, mas que atingido prometia aceitação.



A fome de alegria (luz própria)


   Por tudo isto e mais qualquer coisa que nunca soube identificar, desde criança que me sentia sempre profundamente infeliz. Quase todos os dias pensava que tinha todas as razões para ser feliz mas simplesmente não conseguia sê-lo, o porquê não sabia mas era certamente culpa minha. Invejava aqueles que tinham dores de verdade porque esses ao menos podiam queixar-se. E assim um dia com uma agulha arranhei a pele lentamente mimetizando os que se automutilavam apenas para o meu corpo ficar de acordo com o que sentia.




   Insaciável descobri na fome o remédio para estas outras fomes, um remédio venenoso que aos poucos e poucos adoeceu-me do corpo à alma e um dia podia ter-me morto.


   Não correspondo exactamente ao retrato de um anoréctica ou de uma bulimica o que é muito natural pois há muitos mais distúrbios alimentares além destes de que os media estão sempre a falar.

   O que me aconteceu foi simples, desde criança ouvira falar de pessoas que deixavam de comer para emagrecer, de pessoas que induziam o vómito, tomavam diuréticos, laxantes e estimulantes... e eu muito deliberadamente, a fim de perder a barriga, usei as suas técnicas porque, como mostrava a TV, resultavam. A primeira com resultados absolutos e as seguintes como remédio de emergência, métodos de compensação.

   Durante anos nunca pensei estar doente, achava que essas pessoas que via na TV não tinham consciência do que estavam a fazer nem do seu peso real. Eu tinha, eu sabia o que estava a fazer, não estava obcecada pela ideia de pesar 25kg, ficaria pelos 47, ou melhor, pelos 45, por uma questão de segurança. Nem tão pouco pensava que o meu sucesso profissional depende-se da minha aparência, ou que nunca viria a ser amada. Que um homem me amasse era perfeitamente possível quando fosse adulta, mas o prazer de suscitar paixões, esse ser-me-ia vedado por um peito pequeno, barriga de barril e coxas de frango, que a continuar assim iria ter. Não estava doente e poderia ter optado pelo exercício se não fosse a minha falta de jeito que me tornava uma palhaça nas aulas de Educação Fisica e me ostracizara socialmente desde a infância. Oh a falta de jeito... mais um defeito que apenas o recurso à fome podia combater.


Venus Evolution

   Vendida a alma ao diabólico estereótipo de beleza e sucesso ocidental, restou apenas um campo em que ainda me desenvolvia, o religioso. As duas lutas cruzaram-se numa busca pela perfeição no meu 10º ano. Como eu nunca me entendia com os esotéricos evitava os seus manuais lendo-os parcialmente (apenas capítulos referentes à roda do ano celta), quando lia. A inspiração e modelos surgiam-me espontaneamente e por vias indirectas como na leitura do romance As Brumas de Avalon e seus subsequentes de Marion Zimmer Bradley, que bebem muitos dos princípios da wicca. Enfim sem mais rodeios em busca de motivação comecei a imitar o jejum das sacerdotizas de Avalon, confiante de que me abriria as portas para a espiritualidade e me faria perder peso.

   Como seria de esperar funcionou, sentia-me mais intuitiva, mais encantadora, mais perto da deusa cujo o símbolo omnipresente era a lua. Mas foi tudo efémero, depois quando fui apanhada pelo ciclo vicioso, ”No food-compusão-No food”, desmoronou-se tudo. Por um lado tentava fazer jejum simplesmente para parar de comer, sempre com a esperança de que a seguir conseguiria normalizar a minha alimentação e parar de engordar. Por outro porque estava convicta que a Deusa só me estava acessível se jejua-se, essa era a única forma que eu tinha de aumentar as minhas capacidades, de me aproximar ligeiramente dos esotéricos natos. Tudo em vão, há medida que o tempo passava os períodos de jejum eram cada vez mais curtos e os de hiper-ingestão mais longos.

   Não engordava significativamente mas também não emagrecia e essencialmente sofria. Convenci-me que estava condenada a ser gorda e indesejada e que era tudo uma questão de tempo. Assim um belo dia decidi que deixaria de ser virgem no prazo de um ano. O acaso trouxe-me um voluntário e eu aproveitei, não quiz saber que tivesse namorada, que fosse intelectualmente desinteressante, que não respeitasse a minha vontade, nem mesmo que apesar de personificar o meu estereótipo de beleza masculina chegada a hora não me excitasse, marquei o dia e fui.
   
    A 19 de março de 2007, o mais próximo do equinócio que se pode arranjar pedi protecção à Deusa e deitei-me com um homem que não conhecia e em quem não confiava. Achava que estava a fazer um rito de fertilidade mas na verdade estava a prestar culto à minha própria presunção e à visão redutora que tinha do meu próprio ser. E se o sei hoje é porque a deusa ou a minha consciência, se assim o preferirem, me disse.
  
   Depois deste 1º contacto tão intenso e profundo digno de qualquer romance esotérico e que me mudou para sempre, fez-se um silêncio da sua parte que me atormentava tanto como a comida. Sem sucesso tentava reaproximar-me, e tentei tanto que certa noite consegui. Andava tão desligada pela doença que só no dia seguinte percebi que a face que brilhava no céu era a anciã e que fora com ela que me tinha encontrado. Na altura a sua mensagem pareceu-me terrível, e entre outras coisas disse-me que não me queria para sua sacerdotisa.

   Fiquei de rastos, andei mais um ano convicta de que não tinha qualquer tipo de religiosidade, pensava que talvez devesse parar de pensar também neste campo, a fim de me conseguir converter ao cristianismo. Mais disparates!!!

   O que eu precisava era de tratar o meu distúrbio alimentar, assim que comecei a melhorar percebi tudo de maneira diferente e a deusa sorriu-me de novo. Hoje gosto de mim como sou! E sei que não há coisas a mudar mas sim a aprender. Tenho ainda um longo caminho pela frente, na verdade vou ter sempre, porque a luta é diária.




   Enfim... sentia-me na obrigação de passar a mensagem. Agora só mais duas informações úteis:

Consulta de disturbios alimentares dos H.U.C.:
http://www.huc.min-saude.pt/psicdisalimentares/index.html

e esta leitura esclarecedora



P.S.: Não considero a obra de Marion Zimmer Bradley Pró Ana ou Pró Mia ou de qualquer outro distúrbio, é apenas uma série de romances que a minha mente doente deturpou