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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O yoik - um cantar sagrado em louvor da Vida

  
Olá!
   Hoje deixo-vos dois videos sobre o yoik/joik que é apenas uma das forma de cantar tradicionais da cultura Sami mas talvez a mais popular. Como nos explicam no primeiro video (a partir dos 03:08), a prática do yoik é na sua origem ligada à religiosidade tradicional dos Sami, bastaria isso para que eu aqui publicasse algo sobre ele, mas o que mais me atraiu no yoik foi o facto de não incluir obrigatóriamente palavras. Trata-se de uma forma de expressão essencialista, em que nos envolvemos realmente com os elementos e expressamos sentimentos e emoções e por isso tão fácil de incluir nas nossas práticas pessoais. No fundo parece-nos familiar, não? Quantas vezes já cantarolamos uma melodia ao olhar pela janela num frio dia de inverno ou porque acordámos cheios de energia num dia cheio de sol?  


O tambor é a Mãe Terra, a batida o bater do seu coração!




terça-feira, 23 de agosto de 2011

Mito Iroquês - A origem da medicina

 

 Olá!!!
   Achei este mito Iroquês especialmente interessante e decidi partilhar, espero que gostem e gostava que partilhassem as vossas opiniões sobre ele.

  «Antigamente, os animais eram dotados de fala e viviam em alegre harmonia com os homens, mas a humanidade começou a reproduzir-se tão depressa que os animais foram forçados a morar nas florestas em lugares desertos, e a velha amizade entre animais e homens foi esquecida. A brecha alargou devido ao invento das armas mortais, com as quais o homem começou a matança indiscriminada dos animais para obter a sua carne e as suas peles.

   Os animais, a principio surpresos, cedo se enfureceram e começaram a pensar em modos de retaliação. A tribos dos ursos reuniu o seu conselho, presidido pelo Velho Urso Branco, o chefe. Após vários intervenientes terem denunciado as tendências sanguinárias da humanidade, foi decidido unânimemente que seria declarada guerra; mas a falta de armas era olhada como uma grande desvantagem. No entanto foi decidido que as armas dos homens deveriam ser viradas contra eles mesmos e, visto que o arco e a flecha foram considerados os principais agentes humanos de destruição, ficou decidido que seria criada uma imitação. Foi trazido um pedaço de madeira adequado e um dos ursos sacrificou-se para assim poderem obter cordas feitas de tripa para o arco. Quando o instrumento foi acabado, descobriu-se que as garras dos ursos interferiam no disparar da arma. Um dos ursos cortou as suas garras, mas o Velho Urso Branco disse sensatamente que assim não conseguiriam subir às árvores, nem tão pouco caçar; por isso, se as cortassem, morreriam todos à fome.

   Também os veados se reuniram com o seu chefe, Pequeno Veado. Foi decidido que todos os homens que matassem um membro da tribo dos veados sem depois pedirem perdão de maneira correcta, passariam a sofrer de reumatismo. Deram a conhecer esta nova regra a um acampamento de índios que se encontrava ali perto e explicaram-lhes como haviam de fazer para compensar o facto de terem matado um dos membros da tribo dos veados. Decretaram que, quando um veado fosse morto por um caçador, o Pequeno Veado correria para o local e, dobrando-se sobre as nódoas de sangue, perguntaria ao espiríto do veado que morrera se tinha ouvido a oração do caçador em forma de pedido de desculpa. Se a resposta fosse “sim”, tudo ficava bem e o Pequeno Veado ir-se-ia embora mas se a resposta fosse negativa, ele seguiria o caçador até à sua tenda e atingilo-ia com reumatismo, de maneira a que se tornasse um inválido inútil.

   Depois foi a vez de os répteis e os peixes se reunirem, ficando decidido que assombrariam todos aqueles que os atormentassem com sonhos em que cobras e serpentes se enrolavam nos seus corpos ou em que eles comiam peixes em decomposição.

   Por fim, os pássaros e os insectos e os animais mais pequenos reuniram-se também para o mesmo efeito. Cada um de sua vez deu a opinião e o consenso a que chegaram foi contra a espécie humana. Eles imaginaram e puseram o nome a várias doenças.

   Quando as plantas, que eram amigars dos homens, ouviram o que os animais estavam a planear, decidiram fazer com que as suas tentativas de destruir os homens saíssem furadas. Cada árvore, arbusto, relva ou mesmo erva decidiu criar um remédio para algumas das doenças referidas. Quando o médico tinha dúvidas no que dizia respeito ao tratamento a administrar para o alívio de um paciente, o espírito da planta sugeria um remédio adequado. Foi assim que nasceu a medicina.»
SPENCE, Lewis, 1997, Guia Ilustrado de Mitologia Norte-Americana, Lisboa, Editorial Estampa

quarta-feira, 24 de março de 2010

Outras Rodas II - A Roda das Colheitas (plantas mágicas e medicinais)



  As culturas animista/xamânicas falam muitas vezes de plantas sábias referindo-se a plantas medicinais e mágicas. As plantas são mágicas por posuírem poderes divinatórios, abrirem as portas ao conhecimento extático, funcionarem como amuleto ou estarem associadas a alguma divindade.  Para mim que gosto muito de as conhecer esta é uma visão lindíssima e há de facto muito a aprender. Outro dia tracei a roda do ano e preenchi-a com as épocas de colheita de algumas das plantas que mais utilizo e assim ficou bem explicito o ciclo de regeneração da Terra. A mãe pede-nos uma trégua nos meses de Inverno mas oferece-nos fartura mais de metade do ano, sinto-me grata por isso. Aproveitá-la é uma oportunidade ao nosso dispor mas requer sabedoria e respeito.
   Aqui vos deixo uma listagem de algumas das plantas que eu própria colho fora do meu quintal e respetiva simbologia e data de colheita. Mas atenção! Nos últimos anos a colheita já se chegou a atencipar um mês em relação à data tradicional, pelo que devem estar atentos ao ritmo da terra. Por outro lado a simbologia mágica que apresento é meramente indicativa, quanto mais pesquisarem sobre o assunto mais vão encontrar e talvez até contraditórios. Por isso não se stressem e sigam a vossa intuição, e visto que a visualização é tão importante nestas coisas a meu ver não se perde nada em seguir associações pessoais.
                                                                                        

Regras Básicas

  1. Assentar ou reavaliar os seus conhecimentos fitoterapeutico em literatura científica recente.

  2. Usar para fitoterapia apenas plantas que conhece bem e se apresentam sãs. 

  3. Respeitar sempre as dosagens e modos de preparação e ter sempre em conta os avisos a respeito da sua tóxicidade e contra indicações.

  4. Não colher plantas protegidas ou em vias de extinção (variável de região para região).

  5. Colher quantidades modestas sem colocar em risco a sobrevivência da planta ou colónia (as plantas devem ser usadas no prazo máximo de 1 ano).

  6. Colher de manhã em dias de sol depois de o orvalho evaporar.

  7. Secar totalmente à sombra e só depois armazenar.


Alecrim (Rosmarinus officinalis)

Colheita: flores no auge da floração (Maio e Junho), folhas (todo o ano) 
Partes usadas: folhas e flores
Aplicações: fitoterapia, sachês, defumação
Simbologia: saúde, amor, purificação

Alfazema (Lavandula officinalis)

Colheita: Maio e Junho
Partes usadas: flores (fitoterapia) ou toda a planta  
Aplicações: fitoterapia, sachês, óleos, condimento
Simbologia: felicidade, amor, paz, purificação, protecção


Camomila-vulgar / Margaça-das-boticas
(Chamomilla recutita / Matricaria Recutita)

Colheita: Primavera
Partes usados: Capítulos (flores)
Aplicações: fitoterapia, tisana, cosmética, óleo, sachês
Simbologia: amor, purificação


Carvalho-roble (Quercus robur)

Colheita: Abril e Maio (casca), Outono (frutos)
Partes usadas: casca dos ramos jovens finamente cortada e esmagada (fitoterapia)
Aplicações: fitoterapia e uma enormidade de outros usos etnobotânicos
Simbologia: sabedoria, longevidade, força, a bolota devido ao seu formato fálico é associada à virilidade e fertilidade masculina


Cidreira (Mellissa officinalis)

Colheita: de Julho a Setembro durante a floração
Partes usadas: folhas
Aplicações: fitoterapia, tisana, sachês
Simbologia: purificação, amor 


Giesta (Cytisus scoparius)

Colheita: Maio e Junho (flores ao desabrochar)
Partes usadas: flores (fitoterapia) e ramagem
Aplicações: fitoterapia, vassouras
Simbologia: está associada aos festejos do 1º de Maio - Beltane 


Hipericão (Hypericum perforatum)

Colheita: Verão
Partes usadas: sumidades floridas
Aplicações: fitoterapia, sachês
Simbologia: planta solar associada a S. João e portanto ao solsticio de Verão - força, vitalidade




Hortelã Pimenta (Mentha x piperita)

Colheita: Verão
Partes usadas: folhas
Aplicações: fitóterapia, tisanas, óleo, sachês
Simbologia: saúde, amor, purificação, protecção, potencia a percepção psíquica 


Loureiro (Laurus nobilis)

Colheita: Verão
Partes usadas: Folhas e frutos (só devem ser usados secos antes disso contêm cianeto)
Aplicações: fitoterapia, condimento, Foguerias de São João (ramos com bagas)
Simbologia: força, clarividência


Lúcia-lima (Aloysia triphylla)

Colheita: Julho e Outubro
Partes usadas: folhas
Aplicações: tisanas, óleo, sachês
Simbologia: amor, purificação


Lúpulo (Humulus lupulus)

Colheita: Outono quando ficam amarelo-esverdeada
Partes usadas: flores femininas
Aplicações: fitoterapia, cerveja
Simbologia: na Mordóvia (Rússia) é associado à fecundidade
Oliveira (Olea europacea)

Colheita: Entre Março e Abril (folhas antes da floração), Novembro e Dezembro (fruto)
Partes usadas: folhas e fruto
Aplicações: fitoterapia, alimentação, óleo com diversas utilidades, sachês
Simbologia: paz e a meu ver também à prosperidade


Mangerona (Origanum majorona)

Colheita: de Julho a Setembro
Partes usadas: Sumidades floridas
Aplicações: fitoterapia, condimento
Simbologia: felicidade, amor


Oregão-vulgar (Origanum vulgare)

Colheita: de Julho a Setembro
Partes usadas: sumidades floridas
Aplicações: fitoterapia, condimento, sachês
Simbologia: felicidade


Papoila-das-searas (Papaver rhoeas)

Colheitas: entre Maio e Junho
Partes usadas: Pétalas
Aplicações: fitoterapia, sachês
Simbologia: sorte mas eu nunca me esqueço do seu rubor


Pilriteiro (Crataegus laevigata)

Colheitas: Abril e Junho (flores) e Outono (fruto - pilrito)
Partes usadas: sumidades floridas(em botão ou a desabrochar) e frutos
Aplicações: fitoterapia, alimentação, sachês,
Simbologia: planta sagrada do Beltane


Salva (Salvia officinalis)

Colheitas: no Verão pouco antes da floração ou no Outono
Partes usadas: folhas
Aplicações: fitoterapia, condimento, defumação, óleo, sachês
Simbologia: protecção e espiritualidade


Silva (Rubus fruticosus)

Colheita: na Primavera antes da floração
Partes usadas: folhas jovens e tenras (fitoterapia) e frutos
Aplicações: fitoterapia, alimentação
Simbologia: força, vitalidade

Silva-macha (Rosa canina)

Colheita: entre Junho e Setembro
Partes usadas: frutos e flores (apenas para sachês)
Aplicações: fitoterapia, culinária, tisanas, sachês
Simbologia: tal como as restantes rosas está associada ao amor, mas nas rosas existem várias cores como na vida vários amores, um aspecto a ponderar.


Tília (Tilia cordata, T. platyphyllos e seus hibrídos)

Colheita: Junho depois de dois terços da planta terem florido 
Partes usadas: inflorescências e alburno
Aplicações: fitoterapia, tisanas, sachês
Simbologia: amor, árvore das fadas


Tomilho-vulgar (Thymus vulgaris)

Colheita: inicio da floração
Partes usadas: folhas e sumidades floridas
Aplicações: fitoterapia, condimento, óleo, sachês
Simbologia: força, clarividência


Urtiga (Urtica dioica)

Colheita: Maio e Junho
Partes usadas: folhas (fitoterapia e alimentação) e raízes (fitoterapia)
Aplicações: fitoterapia, alimentação


Urze (Calluna vulgaris)

Colheita: entra Julho e Outubro
Partes usadas: sumidades floridas
Aplicações: fitoterapia, fogueiras de S. João, sachês (burganiça)  
Simbologia: associada ao solstício


Videira (Vitis vinifera tinctoria)

Colheita: Outono
Partes usadas: folhas quando vermelhas (fitoterapia), frutos
Aplicações: fitoterapia, alimentação, sachês
Simbologia: associada aos cultos extáticos - libertação



 
Boas Colheitas!!!

terça-feira, 2 de março de 2010

Outras Rodas I - Apontamento sobre a Roda da Medicina


   Devia ter uns 16 anos quando o meu irmão me chamou para um passeio pela mata. Fomos os dois em silêncio por muito tempo até que me disse o que ia fazer: - "Preciso de fazer uma oferênda de tabaco, vou ensinar-te a fazê-lo." Achei estranho pois nunca lhe pedira que me ensinasse e o meu irmão age na maior do tempo como racionalista mas prossegui em silêncio. Chegados ao local pediu-me que verificasse se havia alguém nas próximidades, não vi ninguém e pensei no que me ensinara na infância "No mato temos sempre milhares de olhos voltados para nós. Desconfia quando não vires ninguém [homens e animais]". Ainda assim tentámos relaxar, o cantar dos pássaros dizia-nos que tinhamos pouco tempo até ao anoitecer, não podiamos esperar.
   O meu irmão traçou então um círculo no chão, assinalou com os braços de uma cruz central os 4 pontos cardeais, e de seguida ofereceu um pouco de tabaco a cada direcção, tendo por último enterrado-o no centro do círculo. "Esta é a roda da medicina" - disse-me, e daí em diante comecei a traçá-la com uma paixão intrigante. Hoje é para mim um dos símbolos mais poderosos que conheço e um sincretísmo com círculo mágico wiccano.


  "Também conhecida como o arco sagrado, a roda da medicina é usada para ajudar a meditação e é um símbolo das crenças dos indigenas da América. É um circulo dividido por duas linhas, que simbolizam a estrada azul do espírito  (de leste para oeste) e a estrada vermelha da vida (de sul para norte).
   As quatro secções resultantes do círculo representam as estações do ano. Tal como sucede com o círculo de pedra, cada ponto cardeal está associado à direcção da bússola e a atributos particulares que podem ser relacionados a épocas e situações na nossa própria vida. O Leste é o lugar da inspiração e o começo de uma nova ideia. Progredindo em torno da roda, a direcção seguinte é o Sul, relacionado com a consolidação do ciclo. O Oeste é o lugar onde podem ser colhidos os frutos de uma iniciativa. A direcção final é o Norte, o lugar para recuperar e reflectir.
   O circulo pode ser usado para estabelecer uma relação com a sua posição num dado ciclo e para encontrar o melhor percurso da acção a tomar para ver um resultado natural: para decidir se devia estar  a começar algo novo ou para se concentrar em alimentar aquilo que tem no presente, aceitar as vantagens de uma situação ou recolher a sua energia."    
Fonte: ADCOCK, William (2001) Xamanismo - Rituais Para as viajens do espírito e a criação de espaços sagrados. Lisboa. Editorial Estampa: p.25