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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Vai em paz e sem rancor da humanidade!

   

    Mórbido? Nojento? Talvez... mas eu faço.
    Se há coisa que me azeda o dia nos trajetos quotidianos é assistir à decomposição dos animais atropelados. Ainda que por vezes uma alma caridosa os arraste para a berma a fim de evitar o repisamento, vezes demais o corpo por ali fica. Não aparece o dono para o sepultar nem nenhuma entidade para recolher o cadáver da via publica.
    Mas às vezes passo eu e ao ver um novo corpo pesa-me o coração, fico ruim com a vida. Talvez um acidente... Talvez evitável... Talvez premeditado.... Então perante um corpo fresco faço algo que para a maioria das pessoas é parvo, peço ao espírito do animal que parta em paz e sem rancor da humanidade, e se tiver ao meu alcance pego nele e enterro-o. Fico sempre a pensar no sofrimento do possível dono que talvez gostaria de ser ele a despedir-se, mas sinceramente prefiro ser profilática.
   Quem me vir a tomar esta atitude certamente fica extremamente enojado e a achar-me demente (aliás tal coisa já aconteceu) mas eu cá sinto-me muito melhor em fazer alguma coisa. Este ano já foram três, dois deles meus conhecidos, todos gatos. 
   A decomposição é sempre uma visão desagradável mas na via publica é indigna.        

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A vida e a morte e toda a lógica da cadeia alimentar



Há quase dois meses que sinto vontade de escrever isto e apesar de achar que a maioria das pessoas já ouviu falar desta prática continuei a sentir o impulso. Então cá vai...

O chamado "enterro celeste" é um rito funebre tradicional no budismo tibetano, em que o cadáveres são expostos ao ar livre desmembrados.

Do ponto de vista funcionalista a prática terá surgido devido à escasses de madeira na região para proceder à cremação que fica assim reservada aos guias espirituais. O enterramento por seu lado seria reservado a criminosos e vitimas de doenças.

Já do ponto de vista cosmológico a prática faria sentido na medida em que após a realização de um ritual que auxilia a libertação de toda a consciência do individuo do seu corpo e a sua "transferência" para outro plano, podendo reencarnar em seguida, o corpo que perde qualquer utilidade. E é num acto de generosidade, deixado à disposição de outros seres vivos para que dele se possam alimentar.

É esta ultima ideia que faz todo o sentido para mim. Desde pequena que me faz uma certa confusão a obecessão com que se arranca toda a santa ervinha que nasça em torno das campas nos cemitéios portugueses. Não sei e não tenho pressa em tomar posição na eterna discussão em torno do que acontece ao espirito/consciência ou lá o que seja, depois da morte do corpo. Só sei que vou sempre sentir saudades dos amigos que morreram e que me anima saber que no universo "nada se perde, tudo se transforma".

Apazigua-me muito mais pensar que aquelas ervinhas em torno da campa de um ente querido têm parte de si e que florescem graças a si, do que qualquer outra ideia sobre eterno descanso ou reencarnação. Sem duvida que prefiro pensar que ele agora se dividiu e faz parte de um todo maravilhoso que e o universo e a vida, e só gostava de ter conseguido explicá-lo aos corações destroçados com os quais me cruzei.

Além disso há aqui uma questão de justiça, se ao longo da nossa vida nos alimentamos de outros seres vivos parece-me muito bem que outros seres vivos se possam alimetar de nós também. Por questões sanitárias o "enterramento celeste" é posto de parte, mas porquê o horror às ervinhas? Porque não semear aí mesmo as flores que tanto gostamos de aí depositar?