segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Cantico das Criaturas de Francisco de Assis



   Costuma-se dizer que não há regra sem excepção e S. Francisco de Assis sempre me pareceu uma no seio do catolicismo. Hoje deixo-vos o cântico das criaturas ou cântico do irmão sol, é uma publicação cliché para um blog como o meu, mas não resisti porque, num mundo em que o homem fora colocado no centro do universo, tratar por irmã a mãe terra soa a heresia.
   Mesmo hoje o franciscanismo destaca-se por focar a relação com a natureza sendo fascinante ler sobre o Humanismo Franciscano e a Ecologia. Para quem sinta curiosidade por esta teologia que se aproxima dos valores do xamanismo e do neo-paganismo aconselho uma visita ao site: http://www.capuchinhos.org/. como primeiro passo para uma pesquisa segura do assunto.



Cântico das Criaturas



Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,

a ti o louvor, a glória,

a honra e toda a bênção.

A ti só, Altíssimo, se hão-de prestar

e nenhum homem é digno de te nomear.



Louvado sejas, ó meu Senhor,

com todas as tuas criaturas,

especialmente o meu senhor irmão Sol,

o qual faz o dia e por ele nos alumias.

E ele é belo e radiante,

com grande esplendor:

de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.



Louvado sejas, ó meu Senhor,

pela irmã Lua e as Estrelas:

no céu as acendeste, claras, e preciosas e belas.



Louvado sejas, ó meu Senhor,

pelo irmão Vento

e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno,

e todo o tempo,

por quem dás às tuas criaturas o sustento.



Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água,

que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.



Louvado sejas, ó meu Senhor,

pelo irmão Fogo,

pelo qual alumias a noite:

e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte.



Louvado sejas, ó meu Senhor,

pela nossa irmã a mãe Terra,

que nos sustenta e governa,

e produz variados frutos,

com flores coloridas, e verduras.



Louvado sejas, ó meu Senhor,

por aqueles que perdoam por teu amor

e suportam enfermidades e tribulações.

Bem-aventurados aqueles

que as suportam em paz,

pois por ti, Altíssimo, serão coroados.



Louvado sejas, ó meu Senhor,

por nossa irmã a Morte corporal,

à qual nenhum homem vivente pode escapar.

Ai daqueles que morrem em pecado mortal!

Bem-aventurados aqueles

que cumpriram a tua santíssima vontade,

porque a segunda morte não lhes fará mal.



Louvai e bendizei a meu Senhor,

e dai-lhe graças

e servi-o com grande humildade.





quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Apátrida


Era perto de casa, um sitio calmo onde tive um raro momento de visualização, onde vi e fotografei coisas lindas, onde dormi belas sestas e escutei a voz do vento...



E no domingo passado acordei, fui ao jardim e descobri que só restava isto. Um sinal dos tempos talvez... a silvicultura é um investimento a longo prazo, eles cresceram, eu cresci e  simplesmente chegou a altura da sua colheita. 
Talvez seja uma forma de egoismo, mas estou triste, no coração este sitio também era meu e já foram tantas as perdas. A maior dor do crescimento talvez seja a transformação do espaço, pouco resta do meu mundo. Talvez seja altura de abrir as asas e partir. Plantar os meus próprios pinhais, criar o meu próprio mundo, mas  ainda é tão dificil ir.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Problemas de Visaulização - um lamuriento desabafo

  Cosmic Bidge by Sigrid Nepelius
   Olá!
   Já há uns tempos que não escrevo nada de jeito por aqui, e há uma boa razão para isso. Há uns anos que insisto em ler uma obra que promove o auto conhecimento, porque acredito que ao repetir cada ciclo cresço mais um pouco. Porém nunca é fácil e há muitos momentos de frustração. Gira tudo em torno de um velho problema - visualização.
   Primeiro pediram-me para encontrar, visitar e sentir lugares sagrados e eu achei que seria praticamente impossível devido à construção de uma nova estrada nacional, que desflorestou o que restava da floresta da minha infância. Pensei em revisitá-las em espírito mas não se revelou fácil, a minha memória não é visualmente muito nítida e temi que ao forçar em vez de recordar criasse memórias falsas, coisa que não desejo para a minha infância. Adiei o confronto com o problema.
   Mas depois pediram-me directamente para visualizar, porque como escreveu Dion Fortune "a magia é a arte de mudar a consciência pela vontade". Mais uma vez a coisa não correu muito bem. Por um lado fui educada para louvar coisas invisíveis, por outro sempre me disseram para ter cuidado com a imaginação, a racionalidade, essa sim, era segura. Pelo que ver deuses e gnomos revelou-se tarefa ingrata e há qual não me consigo apegar. O meu contacto com a divindade sempre foi por pensamentos sobre a forma de palavras, sentimentos e súbitas ideias. Perante a minha dificuldade aconselharam-me a tentar na floresta ao que respondi: - Qual floresta?
   Pensei que talvez precisa-se de exercícios mais simples, realmente mais simples, do tipo olhar para uma flor durante algum tempo e depois visualizá-la de olhos fechados. Mas revelaram-se ainda mais difíceis, ao que parece quando fecho os olhos o meu cérebro simplesmente pára. Eu sempre soube que sonhava mais de olhos abertos mas tinha esperança que o treino mudasse isso... bem até à data não mudou e ao que parece entre os meus conhecidos sou a única assim. E nem vamos falar de construir cenários surrealistas porque a resposta adivinha-se.
   O que mais me irrita é que quando me ponho a lavar loiça, aspirar, etc... entro imediatamente em devaneios românticos muito pouco plausíveis. Quando não me perco nestes devaneios sou assaltada por memórias de todo o tipo de peripécias ridicularizantes pelas quais tenha passado na vida. Recordei-me porque detesto agir como uma menina prendada, simplesmente sinto-me mesquinha e desapaixonada. 
   Assim no fim de mais uma lua com resultados discutíveis decidi virar a página e espreitar o próximo capitulo, optimista com a ideia de que seria sobre magia herbal. Pois bem, não era, a minha memória traiu-me novamente. Digamos que tenho que visitar locais sagrados com raízes pagãs e imaginem só... visualizar como eram no tempo dos cultos pagãos, não só as estruturas mas também as práticas... sim as práticas, poderia haver terreno mais movediço, para um racionalista vindo de arqueologia? 
   É bem possível que esteja a fazer uma tempestade num copo de água, não é? Que só tenha que relaxar. Mas a questão pode também ser um pouco mais profunda. Afinal com tão fraca imaginação, posso vir ainda a encaixar-me numa prática religiosa extática, ou não? Esta pode ser aliás a definitiva linha de cisão entre a minha cosmologia e a wicca. E se não for extática, que mal há? Porque é que eu sinto isso como um problema? Por parecer-me que me aproximo do cristianismo? Isso não é verdade e além do mais o que não falta são relatos de êxtase religioso no cristianismo.
    Enfim são estas as grandes questões que tenho que trabalhar e que ao fim de tantos anos ainda não me sinto preparada para responder. Mas sei que não vale de nada virar-lhe as costas.

P.S.-Não tenham medo de dar ideias e opiniões que eu bem preciso delas. E sim já pensei nos aditivos e abstinências mas não me parece que fossem boa ideia para mim.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Culinária Mágica no Catolicismos Português


A receita que se segue é confeccionada todos os anos pela minha mãe para o dia de todos os santos. Apresento-vos aqui os ingredientes, gestos e palavras que a observei repetidamente fazer e que como vão constatar tem um lado supersticiosos bem vincado.


Bolinhos dos Santos
(bolinhos de farinha de trigo)

Ingredientes

3kg de farinha (com adição de fermento)

1,2kg de açúcar

Raspa de 4 a 5 limões

7 ovos

1 noz de fermento de padeiro dissolvida em água morna

2 colheres (sopa) cheias de margarina

Água com sal, mel, canela e erva doce, passas e nozes a gosto

Uma chávena (café) de azeite quente



Modo de confecção

Mistura-se numa tigela a farinha, o açúcar e a raspa dos limões, canela e erva doce.

Abrem-se 4 buraquinhos e despejam-se os ovos batidos no 1º, a água com sal no 2º, no 3º as 2 colheres de margarina derretidas, e no 4º o fermento dissolvido. Começa-se a amassar, junta-se o mel e retempera-se de especiarias, sempre com uma tigela de água por perto que se deve adicionar se a massa apresentar grumos.

Quando estiver tudo bem envolvido e temperado rega-se a massa com o azeite quente. Neste momento a massa deve começar a desprender-se das bordas da tigela. Juntam-se então as passas e as nozes.

Traça se uma cruz na massa e reza-se a seguinte oração “Em louvor de São Miguel e S.Simão acrescente em massa o que acrescentou em grão” e em seguida cobre-se então com calças de homem “barrasco”.

Deixa-se levedar 90 minutos resguardado do frio e vai a cozer em forno bem aquecido.

PS: Quem sabe uma fonte de inspiração para confecções no próximo sabbat.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A vida e a morte e toda a lógica da cadeia alimentar



Há quase dois meses que sinto vontade de escrever isto e apesar de achar que a maioria das pessoas já ouviu falar desta prática continuei a sentir o impulso. Então cá vai...

O chamado "enterro celeste" é um rito funebre tradicional no budismo tibetano, em que o cadáveres são expostos ao ar livre desmembrados.

Do ponto de vista funcionalista a prática terá surgido devido à escasses de madeira na região para proceder à cremação que fica assim reservada aos guias espirituais. O enterramento por seu lado seria reservado a criminosos e vitimas de doenças.

Já do ponto de vista cosmológico a prática faria sentido na medida em que após a realização de um ritual que auxilia a libertação de toda a consciência do individuo do seu corpo e a sua "transferência" para outro plano, podendo reencarnar em seguida, o corpo que perde qualquer utilidade. E é num acto de generosidade, deixado à disposição de outros seres vivos para que dele se possam alimentar.

É esta ultima ideia que faz todo o sentido para mim. Desde pequena que me faz uma certa confusão a obecessão com que se arranca toda a santa ervinha que nasça em torno das campas nos cemitéios portugueses. Não sei e não tenho pressa em tomar posição na eterna discussão em torno do que acontece ao espirito/consciência ou lá o que seja, depois da morte do corpo. Só sei que vou sempre sentir saudades dos amigos que morreram e que me anima saber que no universo "nada se perde, tudo se transforma".

Apazigua-me muito mais pensar que aquelas ervinhas em torno da campa de um ente querido têm parte de si e que florescem graças a si, do que qualquer outra ideia sobre eterno descanso ou reencarnação. Sem duvida que prefiro pensar que ele agora se dividiu e faz parte de um todo maravilhoso que e o universo e a vida, e só gostava de ter conseguido explicá-lo aos corações destroçados com os quais me cruzei.

Além disso há aqui uma questão de justiça, se ao longo da nossa vida nos alimentamos de outros seres vivos parece-me muito bem que outros seres vivos se possam alimetar de nós também. Por questões sanitárias o "enterramento celeste" é posto de parte, mas porquê o horror às ervinhas? Porque não semear aí mesmo as flores que tanto gostamos de aí depositar? 

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Males de Inveja - SOS para invejosos e invejados



   É um simples facto, boa parte da população do planeta está neste momento a pensar neste assunto. - Fulano parece ter inveja de mim, mas porquê? - Será que aquele invejoso me vai prejudicar? - É bom saber que sicrano se está a roer de inveja! - Como é que eu me livro deste sentimento horrível, não consigo parar de sentir inveja? - Isto só pode ser mal de inveja! - Aquele(a) invejoso(a) lançou-me um feitiço.

   Inveja... há todo o tipo de histórias que alertam para o seu perigo e todo o tipo de amuletos, rezas, técnicas e especialistas que nos prometem livar-nos dela. Desde as mais pragmáticas às mais esotéricas, há de tudo um pouco e todos nós, quer como invejoso quer como invejado, já recorremos a alguma.

   Recentemente surgiram uns comentários anónimos aqui no blog a propósito deste assunto um deles até parecia um pedido de ajuda. Foi coisa que me intrigou, como poderia eu ajudar?

   Bem vou ser sincera convosco, sou uma pessoa que se esforça por ser racional e prática e acho que o caminho do mágico religioso serve muito pouco para este problema e inclusive potencia uma certa hipocondria. O que não falta por aí é pessoas a beber água benta antes de sair de casa e marginalizados por alegadamente possuirem algum tipo de mau olhado congénito.

   Se nos apercebemos que alguém tem inveja de nós deviamos compadecer-nos dessa pessoa e não retribuir-lhe pragas e ódio. É que ser ou estar invejoso torna quem quer que seja miserável. O invejoso no estado mais avançado da patologia não consegue estar satisfeito com nada benéfico para si próprio, apenas com algo que reduza aquele que inveja. E assim deixa de viver a sua própria vida e passa a viver a de outrém.

   A primeira coisa que devemos pensar quando nos apercebemos que alguém nos inveja é se essa pessoa está a ser de algum modo menosprezada injustamente por aqueles que nos valorizam. Se isso se verifica e nós quizermos ser justos devemos restituir a justiça. Porém muitas vezes aquilo que os outros invejam em nós são coisas que não podemos mudar ou que nos pertencem com toda a legitimidade. Nesse caso aconselho simplesmente que ignoremos esse pobre diabo e que só o castiguemos se ele cometer realmente algum crime. Passar menos tempo a topar o que os outros pensam de nós também pode ser uma boa maneira de fazer desaparecer o problema e não nos tornarmos hipocondriacos, rodeados de amuletos de protecção, orações e a gastar largas somas em especialistas.

   Mais grave é o caso quando somos nós próprios os invejosos. Primeiro passo, porque sinto isto? Estou a ser injustiçado ou isto é disparatado? O mais provável até é não gostar-mos de algum aspecto em nós próprios, algum aspecto que o outro tem e que lhe facilita a vida. Por exemplo: facilidade de aprendizagem, à vontade ou um mero palmo de cara. Temos que aprender a gostar de nós, temos defeitos mas também temos coisas boas, se calhar não podemos mudar esse bem dito aspecto mas podemos melhorar outros. E acima de tudo temos que viver a nossa vida. Às vezes isso pode implicar mudar de ambiente deixar de estar com a pessoa que invejamos para quebrar o sentimento de concorrência e ir em busca dos nossos próprios sonhos. Atenção os nossos sonhos quase nunca são aqueles que aquela pessoa que invejamos realizou atingindo assim o sucesso.
      
   Claro que há aqui uma questão cultural que não pode ser negada, há culturas que assumem a inveja como mais perigosa e outras como menos. E o que não faltam são evidencias de ambas as opiniões. Mas mesmo que o leitor tenha nascido num meio em que a inveja gere grande temor isso não o livra de ser critico em relação ao que lhe ensinaram e quem sabe até concordar comigo.